terça-feira, 14 de outubro de 2014

BRASIL: RJ: RIO DE JANEIRO: 
Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro - 
 Holy House of Misericordy of Rio de Janeiro

1 – Localização: 
Município do Rio de Janeiro. Ap 1.0. Centro. Rua Santa Luzia, 206 (-22.907642, -43.171021)
2 – Histórico:  
            A irmandade de Nossa Senhora da Misericórdia foi criada em Portugal, no ano de 1498, por dona Leonor, irmã de d. Manuel, sob a influência do frei trinitário Miguel de Contreiras. A irmandade organizava-se em torno das chamadas 14 obras de caridade, sete espirituais e sete corporais, inspiradas pelo Evangelho consignados segundo são Mateus, e no primeiro Compromisso de 1516, a saber: "ensinar os ignorantes, dar bom conselho, punir os transgressores, consolar os infelizes, perdoar as injúrias recebidas, suportar as deficiências do próximo, orar a Deus pelos vivos e mortos, resgatar cativos e visitar prisioneiros, tratar os doentes, vestir os nus, alimentar os famintos, dar de beber aos sedentos, abrigar os viajantes e os pobres, sepultar os mortos". Seu âmbito de atuação, portanto, correspondia a esferas bem mais amplas do que o que hoje entendemos como sendo as de um hospital. Contando com patrocínio régio, a Santa Casa espalhou-se rapidamente pelo império português, tornando-se a irmandade leiga de maior poder e expressão no que concerne às obras de caridade. Tornou-se uma marca da colonização portuguesa. As Misericórdias de maior poderio em terras brasílicas foram as do Rio de Janeiro e da Bahia, centros vitais do projeto colonizador português. 
           “Como se sabe, a Sancta Casa da Misericordia do Rio de Janeiro deriva-se das Misericordias de Portugal. Da mais antiga foi instituidor frei Miguel de Contreiras. Em 1498, lançou elle os principaes fundamentos da grande obra de caridade, que o immortalizou e a todos os seus benemeritos continuadores. Miguel de Contreiras era religioso trino ou monge da ordem da Sanctissíma Trindade e Redempção de Captivos de Portugal. Morrera em 29 de Janeiro de 1505, na edade de 74 annos.” (Fazenda, pg. 102)
         Em 25 de março de 1582, chegando ao Rio de Janeiro, a Frota espanhola de Diogo Flores Valdez (com destino ao Estreito de Magalhães) com muitos doentes, o Padre José de Anchieta providenciou, com o auxílio da população, a construção de uma casa de pau-a-pique onde fossem os doentes abrigados e tratados. A casa foi provavelmente construída em terreno ao pé do Morro do Castelo doado pelo conquistador Gonçalo Gonçalves; posteriormente, mas ainda no século XVI, o Hospital da Misericórdia foi transferida para uma casa de pedra e cal, também doada pelo conquistador.
          “Pelos annos de 1582 se entende teve principio a Casa da Misericordia da Cidade do Rio de Janeyro, ou poucos annos antes: porque este anno chegou àquele porto huma Armada de Castella, que constava de dezasseis náos, em que hiaõ tres mil Hespanhoes mandados por Filippe o II. a segurar o estreyto de Magalhaes, de que era general Diogo Flores Baldez. Com os temporaes padeceu esta Armada muyto, porque lhe adoeceu muyta gente, & affim chegáraõ ao Rio de Janeyro bem necessitados de remedio, & de agasalho. Achava-se naquella ocasiaõ naquella Cidade o Veneravel Padre Joseph de Anchieta visitando o Collegio, que alli tem a Companhia fundado no anno de 1567. Como o Veneravel Padre Joseph de Anchieta era varaõ Santo, levado da Caridade tomou muyto por sua conta a cura, & o remedio de todos aquelles enfermos, dando traça como se lhes assinasse uma casa, em que pudessem ser curados todos, & assistidos, para o que destinou alguns Religiozos, assistindo também elle ao mais com as medicinas, Medico, & Cirurgiaõ. Com esta occasiaõ teve principio o Hospital da Cidade de Saõ Sebastiaõ do Rio de Janeyro. E entendendo muytos que entaõ tivera principio a Casa da Santa Misericordia, que hoje he nobilissima. Neste tempo ( como dizemos ) os Irmaõs daquella Santa Casa novamente erecta tomàraõ por sua conta acodir tambem ao Hospital, o que fizeraõ com grande caridade, & o foraõ augmentando no material com tanta grandeza; & tão perfeytas enfermarias, como hoje se vem, aonde se curaõ todos os enfermos de hum, & outro sexo com eximia Caridade. Fica este situado dos muros adentro daquella Cidade, & junto à Casa da Misericordia.” (Maria, vol. 10, pg. 470)
            No entanto, segundo o historiador Félix Ferreira (1899), a instituição teria sido criada em 1545 ou 1547, antes da fundação da cidade do Rio de Janeiro (1565), coincidindo com os primeiros núcleos de povoamento das margens da Baía de Guanabara. Apesar da controvérsias, a data de fundação do Hospital Geral da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro foi oficialmente fixada em 24 de março de 1582, em sessão de Mesa e Junta realizada em 9 de março de 1967. Semelhantemente à Santa Casa de Lisboa, a Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro foi criada para acolher os presos, alimentar os pobres, curar os doentes, asilar os órfãos e atender as viúvas. A Santa Casa era mantida pela Irmandade da Misericórdia, e ao longo de sua história, recebeu poucos e descontínuos auxílios governamentais, vivendo da caridade pública, de recursos oriundos do aluguel de esquifes e, principalmente, de legados e doações de particulares. Nos primeiros tempos o vigário da freguesia de São Sebastião (Igreja de São Sebastião do Morro do Castelo), que abrangia a área da Santa Casa, tentava interferir na eleição do Provedor daquela instituição, mas o Prelado do Rio (o Rio de Janeiro já tinha sido elevado a Prelazia em 1575) proibiu esta prática em 1591.
        “A provisão de 1 de julho de 1591 do prelado administrador, Bartholomeu Simões Pereira, prohibio ao vigário da freguezia existente na cidade intrometter-se nas eleições da irmandade da Misericordia, por estar isenta de sua jurisdicção.” (Azevedo, pg. 356)
            Uma decisão real de 8 de outubro de 1605, de Felipe II (rei de Espanha e Portugal), confere à Misericórdia do Rio todas as provisões e privilégios da de Lisboa e Setúbal. A Misericórdia era então uma Casa na qual se articulavam as ações de caridade guiadas pelos preceitos cristãos e pelas relações de Antigo Regime. O conjunto arquitetônico da Misericórdia foi sendo construído e reconstruído aos poucos, sempre circundante à igreja, em cujo consistório os irmãos faziam suas reuniões. O passo das construções seguia lento à medida que se angariavam recursos entre homens ávidos por garantir a salvação de suas almas, por investir parte de seu capital no prestígio social da instituição e de si próprios. As atividades iniciais da irmandade giravam em torno da manutenção do hospital para enfermos, do casamento de órfãs, da distribuição de esmolas e de "ordinárias", estas aos sábados. Proporcionavam alívio aos doentes nas enfermarias e capelas, num tempo em que os perigos mais graves do corpo deveriam ser enfrentados com a cura das almas. Em 1623, devido à epidemia de varíola, houve tal mortandade no Rio que os cemitérios existentes tornaram-se insuficientes. Devido a isto, a Irmandade da Misericórdia pediu à Camara do Rio, e dela obteve, uma área de terreno, na base do Morro do Castelo, para ampliar o seu pequeno cemitério. Foi este o primeiro cemitério público regular do Rio e nesse local permaneceu até 1839, quando foi transferido para o Cajú (Cemitério São Francisco Xavier). Entre 1620 e 1629 há a ampliação do Hospital, ganhando novas enfermarias, sendo Provedor o Padre Mateus Costa Aborym. Em 1639, Antônio Martins da Palma e sua mulher fizeram doação da Igreja da Candelária à Santa Casa da Misericórdia, mediante a condição de terem, na capela-mor, sepultura para si e para os seus descendentes. O alvará de de 22 de maio de 1642 concedeu à Santa Casa os dízimos de frangos e ovos por 3 anos, o que depois foi estendido por mais anos. A situação financeira da Santa Casa deteriorou-se ao ponto de, em 1647, ser requisitado aos nobres que doassem comida para a alimentação dos doentes internados. Entre 1651 e 1655, a Santa Casa viveu sucessivas crises financeiras, apesar das doações de pessoas caridosas e heranças deixadas por ricos comerciantes. Em 1651, Tomé Correia de Alvarenga, Provedor da Misericórdia cede a Igreja da Candelária, sede da 2ª freguesia do Rio, para a administração eclesiástica, em troca de um terreno para erigir um oratório e conservando o direito de recolher à igreja as suas procissões e nela guardar as tumbas e bandeiras. Em 20 de setembro de 1652, a irmandade de Nossa Senhora do Bonsuccesso se desfez e seu juiz, Jerônimo Barbalho Bezerra, entregou todos os bens da irmandade à Santa Casa da Misericórdia, com a condição de esta continuar a fazer na sua igreja a festa anual de Nossa Senhora do Bonsuccesso. Entre 1671 e 1674, durante a Provedoria de Tomé Correia de Alvarenga houve outra grave crise financeira. Todo o primeiro século de existência da Santa Casa foi marcado por problemas financeiros. Em 1693, devido a nova epidemia de varíola, houve grande mortandade de escravos, tendo o governador Antônio Paes Sande acertado com a Santa Casa da Misericórdia o enterro dos escravos, mediante o pagamento de 960 réis por cada um, pelos seus senhores. Em 1685 o valor foi reduzido a um cruzado.
            “Até os primeiros annos do século decimo-oitavo os soldados da guarnição do Rio de Janeiro, das guarnições dos navios de guerra e os presos erão tratados em suas moléstias na Santa Casa da Misericórdia, que recebia por isso da fazenda real um conto de réis annualmente: em cumprimento da carta regia de 21 de Março de 1702, cuidou-se de crear um hospital dentro do chamado Quartel das Náos, que era na rua chamada dos Quartéis da Armada, na fralda do morro dc S. Bento ; em 1727, ou pouco depois, abrio-se alli o hospital, que enfim o conde de Azambuja transferio em 1768 ou 1769 para o collegio dos jesuitas.” (Macedo, pg. 225)
            Em 1699, com o adoecimento de muitos soldados da Companhia de infantaria que recém chegara de Portugal para ajudar a defender o Porto do Rio de Janeiro (nesta época começava a receber o ouro descoberto a pouco nas Minas Gerais) e a recusa da Santa Casa em trata-los, por falta de dinheiro, o rei de Portugal determinou a construção de um hospital militar, o que só foi feito muitos anos depois.
           “Até então tudo se óbrava conforme com o que se praticava; porém succedeu que a Infanteria estranhando o clima, que, infeccionado pelo contagio das bexigas [varíola] se mostrava mal são, começou a enfermar; e a casa da Misericordia não podendo supprir com o curativo, pela tenuidade dós seus rendimentos, pois não chegaváo os 200$000 com que contribuia a Real Fazenda para as despezas delle, recusou recebe-los; e com quanta deshumanidade e prejuizo publico perêcerão os defensores deste Estado! Accrescêrão graves difficuldades de fazer effectivas novas expedições do Reino, para supprirem a falta dos que acabárão sua existência, por desgraçada falta dos soccorros convenientes, motivo pelo qual EI-Rei dirigio ao Governador a Carta Regia seguinte, determinando a edificação de hum Hospital Militar, accrescentando mais400$000 a favor da Santa Casa para o tratamento dos soldados.” (Lisboa, vol. 5, pg. 239)
            Os soldados e marinheiros franceses da esquadra de Duclerc que em 1710 atacaram o Rio, foram enterrados no cemitério da Santa Casa.
           “Numa das encostas do morro [Morro do Castelo], onde fica a igreja dos jesuítas, está situado o Hospital da Misericórdia, em cujo cemitério foram inumados numerosos franceses. A ele é atribuída uma renda de 40.000 cruzados, vale dizer, 80.000 libras.” (Delagrange, pg. 59)
            Entre 1732 e 1741, os Provedores Manuel Corrêa Vasques e Antônio Telles de Menezes construiram um segundo andar no hospital e, principalmente, a criação do Recolhimento das Órfãs e a Casa dos Expostos. Entre 1737 e 1742, o Provedor Correa Vasquez conseguiu um acordo com capitães, mestres e pilotos de navios para o pagamento de um tributo à Santa Casa por todas as embarcações que atracassem no Porto da cidade. Em troca, o hospital teria o encargo de tratar todos os homens do mar e dar mortalha e sepultura aos que falecessem. A resolução de 23 de agosto de 1760 cedeu à Santa Casa o dízimo de todos os gêneros alimentícios com exceção do açúcar, por 6 anos, com rendimento anual de 332$500; em 1765 o contrato foi arrematado por Manol Alavares de Mira por 400$000. Até 1768, quando foi criado pelo Conde de Azambuja o Hospital Militar no antigo Colégio dos Jesuítas, eram tratados no Hospital da Santa Casa os soldados da guarnição da cidade, os das guarnições dos navios de guerra e os presos doentes, para cujo tratamento contribuía a Fazenda real anualmente com 1:000$000. Grande parte dos recursos da irmandade no período continuaram a ter sua origem na angústia dos homens e mulheres que, tementes por suas almas, investiam parte do patrimônio angariado durante a vida no cuidado com sua partida para o dia do Julgamento. Por conta disso, rezavam-se numerosas missas na igreja da Misericórdia, em favor de homens e mulheres, parentes e compadres, irmãos da Misericórdia e almas do purgatório. O Vice-rei Marquês de Lavradio (1769-1778), executou como seu primeiro ato como Provedor, abolir o racismo na Irmandade retirando o capítulo que só permitia na confraria “quem provasse não ter sangue de mouro, judeu, mulato e cristão novo”. Comprou um terreno e executou a ampliação do cemitério da Misericórdia e diminuiu os déficits da instituição. Em 1772 foi instalada a primeira Academia Científica do país no Hospital Geral. Ela deu origem a Sociedade de Medicina do Brasil, transformada seis anos depois em Academia Imperial de Medicina. Com o advento da República, tornou-se Academia Nacional de Medicina. Pelo alvará de 5 de setembro de 1786, a Santa Casa começou a receber os legados dados à igreja e não cumpridos. Quanto ao tratamento dos doentes em seus dois primeiros séculos de existência, contou apenas com um físico e um cirurgião efetivos, além dos que se ofereciam para auxiliá-los em troca do internamento de doentes particulares e uso das instalações, entre outros interesses. 
            Quando da Inconfidência Mineira, a Santa Casa criou a Mordomia dos Presos para prestar assistência aos réus sem recursos. A Mordomia contratou e pagou os honorários do famoso advogado José de Oliveira Fagundes para defender Tiradentes e os demais réus, inclusive falecidos. O trabalho da Mordomia dos Presos na defesa dos réus que não podiam contratar seus defensores foi o embrião da Justiça Gratuita no Brasil. O Crucifixo que Frei Penaforte, confessor de Tiradentes, conduziu durante o cortejo desde a Cadeia Velha até o local do enforcamento encontra-se hoje na sala do Provedor. Tiradentes beijou o Crucifixo minutos antes de sua execução.
         “Em todos os prestitos funebres de condemnados ao patíbulo figurou a irmandade da Sancta Casa, accompanhada da Bandeira, e levava tambem alçado um Christo crucificado - imagem do Senhor do Agonia, a qual póde ser vista no altar da sacristia da egreja. Nada tem de singular. A 21 de Abril de 1792, a Bandeira e a imagem do Chrísto tomaram parte no crudelissimo prestito de Tiradentes.” (Fazenda, pg. 104)
        Em 1796 o Primeiro-Ministro de Portugal, Marquês de Pombal, expediu um Alvará Real determinando a venda de todos os bens da Irmandade da Misericórdia. Esta perdeu muitos de seus imóveis, vendidos a qualquer preço aos nobres e quase foi a falência com a dilapidação de seu patrimônio. A Santa Casa foi reduzida ao mínimo. O Vice-Rei e Provedor da Santa Casa Conde de Rezende (1790-1801) conseguiu evitar a falência total, salvando alguns imóveis. Em 1800 ele conseguiu o retorno de alguns bens que estavam em poder do Reino.
          O Vice-Rei e Provedor Marquês de Aguiar (1801-1806) buscou o equilíbrio financeiro, destituindo cobradores e nomeando 2 Irmãos para receber os aluguéis dos prédios e foros de terrenos. O alvará de 18 de outubro de 1806 mandou reger pelo compromisso da Casa de Misericórdia de Lisboa os hospitais do Reino e Ultramar. Em 1806 entrou em execução um Alvará que subordinava a Santa Casa ao governo, tendo que prestar contas de tudo e necessitando de licença para todos seus atos. O alvará de 27 de junho de 1808 isentou da décima os prédios da Santa Casa. O alvará de 20 de maio de 1811 isentou a irmandade do imposto de selo. Em 1812, D. João VI colocou em funcionamento na Santa Casa uma aula de medicina prática, iniciando, oficialmente, o ensino médico na Instituição. Em 1821, foi concedida pelo futuro Imperador D. Pedro I a primeira loteria, com extração anual, com o objetivo de angariar fundos para os estabelecimentos da Irmandade. Entre 1813 e 1832 os cursos da Academia Médico-Cirúrgica (Futura faculdade de Medicina), foram transferidos do Hospital Militar, então no antigo Colégio dos Jesuítas no Morro do Castelo, para 2 salas do Hospital da Santa Casa da Misericórida, na praia de Santa Luzia.
            O século XIX trouxe intenso questionamento do espaço e do perfil da Santa Casa. Em 1823, por sugestão, aparentemente, da Assembléia Geral Constituinte, foi formada uma comissão composta por bacharéis, médicos e "autoridades" para informar à Secretaria de Estado dos Negócios do Império e à própria Assembléia Constituinte em que estado se encontravam as diversas repartições da Santa Casa. As discussões, as tentativas de intervenção e as disputas de poder entre a comissão, os órgãos do governo e os irmãos administradores da Misericórdia se desenrolariam pelas décadas de 1820 e 1830, havendo uma batalha com intrigas e mentiras tentando desmoralizar o trabalho da Irmandade, mas esta saiu fortalecida do episódio. Os prédios da Santa Casa passaram a ser vistos como incômodas inadequações às novas noções de higiene e planejamento. As múltiplas funções daquele amplo conjunto arquitetônico centralizado pela igreja da irmandade passam a ser consideradas o veículo de inúmeras contaminações físicas e morais. Em um relatório de 1824, os homens da Comissão se queixavam da intrincada configuração do espaço da irmandade. Em sua opinião, o hospital necessitava de novas enfermarias que possibilitassem tanto a convalescência dos doentes quanto o isolamento de doenças contagiosas. A cozinha não poderia permanecer no mesmo lugar porque a fumaça empesteava as enfermarias. A enfermaria dos loucos não poderia mais ficar onde se encontrava, pois ali, no térreo, incomodavam os doentes que convalesciam nos andares superiores, e eram provocados por aqueles que transitavam nas ruas e nas passagens públicas que recortavam o espaço. A casa do Recolhimento das Órfãs era pequena e inadequada, sem espaço para que as meninas arejassem seus corpos, com a desvantagem ainda de que ficavam moralmente ameaçadas pela vizinhança dos quartéis. Era preciso, portanto, fragmentar o espaço, fazer com que a arquitetura da Misericórdia fosse especializada para cada uma de suas funções. A cura e proteção dos corpos requeriam paredes, canos, ventilações e jardins internos, e não mais tanta proximidade com santos e rezas.
            Em 1828-1829 ocorre nova epidemia de varíola, e para enfrentá-la o Provedor mandou separar os enfermos infectados. Em 1829 foram lançados os alicerces da Academia Imperial de Medicina, atualmente Academia Nacional de Medicina, sob a direção do Dr. Joaquim Candido Soares de Meirelles, médico formado em Paris. Em 1829 visitou a Santa Casa o inglês R. Walsh, que descreveu em seu artigo “Notícias do Brasil” a medicina e as doenças do Brasil e constatou que o Hospital da Misericórdia era a principal Escola de Medicina do país. Em 1835, a comissão criada pela Assembléia Constituinte apresentou à Secretaria de Estado dos Negócios do Império outro relatório avaliando as três principais repartições da irmandade: hospital, Recolhimento, Casa dos Expostos. Suas conclusões reiteravam a necessidade de espaços especializados. E em 1836, a Faculdade de medicina transferiu-se para o Hospital Militar, no Morro do Castelo, permancendo o ensino das cadeiras de clínica médica e cirúrgica nas enfermarias da Santa Casa da Misericórdia.
           Apesar das discussões, o espaço da Santa Casa sofreu poucas modificações até a chegada à provedoria de José Clemente Pereira. Ele foi um dos mais destacados Provedores que a Santa Casa já teve; tornou-se provedor da Santa Casa no ano de 1838, após ter sido conselheiro e Mordomo dos Presos. Durante sua Provedoria, que se estendeu até 1854, foram feitas mudanças nas finanças da irmandade que redundaram em aumento da receita. Levantou fundos entre empresas e particulares e ampliou os serviços prestados. Com seu prestígio e sua amizade com D. Pedro II, melhorou as relações entre a Santa Casa e a Corte. Além disso, atuou em diversas frentes, levantando fundos entre empresas e particulares e organizou a equipe dividindo tarefas e responsabilidades. Embora rico e influente, dedicou-se apaixonadamente ao bem-estar dos menos favorecidos. Ao assumir a Provedora, Clemente Pereira encontrou um patrimônio de 187 prédios, além de terrenos e outros. No entanto, o rendimento mensal era muito baixo e não cobria as despesas. Para manter as finanças equilibradas, buscava doações, quando necessário. Seus amigos ricos e influentes sempre contribuíam para as obras da entidade e D. Pedro II foi um grande doador, ajudando em diversas ocasiões.
          A Santa Casa do Rio de Janeiro era o maior e mais importante hospital existente no país, atraindo os melhores profissionais. Apesar de haver poucos médicos no Brasil, a maioria formada em Portugal e França, o prestígio do Hospital Geral possibilitou o aumento do quadro clínico e de enfermagem, ampliando os serviços prestados a população. Além de expandir sobremaneira o atendimento, Clemente Pereira procurou renovar as práticas, extinguindo privilégios e modernizando setores. Comprou máquinas para a lavanderia, criou gratificação para os meninos empregados, instituiu multas aos médicos faltosos, dentre outras providencias. Criou normas para a cobrança do atendimento nos Hospitais, de forma que os doentes que não fossem pobres pagassem seu tratamento podendo optar por quarto particular, quarto duplo ou enfermaria.
          A água foi introduzida nas três repartições da Santa Casa, criou-se um novo cemitério, um novo hospital, um hospício para os "loucos" e foram discutidas reformas nos regulamentos das repartições. Na gestão de Clemente Pereira, a configuração espacial da irmandade transformou-se definitivamente, iniciando-se a especialização dos espaços. Logo ao assumir a provedoria, fez junto com os demais mesários uma visita de inspeção aos prédios. Bem ao estilo das comissões que vinham tentando intervir na irmandade, a inspeção deu origem a um relatório com propostas de reforma do espaço. Relatório e sugestões foram apresentados em reunião da Mesa de irmãos. 
          Como primeira medida, era preciso revogar os sepultamentos que se faziam no interior ou no adro da igreja da irmandade, e que deveriam passar a ser feitos em local mais afastado do hospital. A existência do cemitério nos fundos do hospital era uma verdadeira calamidade pública: a estatística dos corpos ali sepultados nos últimos oito anos apresenta o número de 22.279, correspondente, termo médio, a 2.784 por ano; no ano findo, de 1º de julho de 1838 a 30 de junho de 1839, enterraram-se nele 3.194 corpos. Houve o fechamento definitivo dos jazigos e catacumbas que serviam de cemitério nos porões do Hospital Geral, causa de insalubridade. Com a aprovação da Imperial Academia de Medicina da Corte, o campo santo da irmandade foi transferido para a chamada Ponta do Calafate, no Caju, e começou a funcionar em julho de 1839. Recomendava-se que os sepultamentos fossem executados com todo cuidado, e as covas elaboradas com a devida profundidade para que os corpos não revolvessem a terra. O chamado Campo Santo da Misericórdia, transferido para sítio distante no Caju (futuro Cemitério São Francisco Xavier), aos poucos se desdobraria em vários cemitérios de denominações diferentes. 
            “Propoz em sessão da mesa conjunta de 30 de julho de 1838 que se fizesse a planta de um novo hospital, e se transferisse o cemitério da praia de Santa Luzia para a ponta do Cajú. ... e comprado por 10:000$000 a João Goulart o terreno para o cemitério começou a funccionar sob o nome de Campo Santo, em 2 de julho de 1839, tendo sido preparado sob desenho do engenheiro Domingos Monteiro.” (Azevedo, vol. 1, pg 358)
             Ele implementou um plano de recuperação do velho hospital, que se encontrava em péssimo estado de conservação. O Hospital Geral era pequeno e inadequado, possuía apenas 300 leitos, insuficiente para atender a população da cidade que crescia. Segundo Clemente Pereira, ele havia sido construído aos pedaços, conforme as necessidades do aumento da população e dos recursos, "sem atenção às condições recomendadas pelas regras de higiene".  Construiram-se duas novas enfermarias, mas algumas destas enfermarias estavam abaixo do nível do chão e eram úmidas e sem circulação, quase sem ar e sem luz. Promoveu a aquisição de uma clínica. Além disso, não possuia esgoto nem água para o serviço interno e funcionava sob ele um cemitério que recebia anualmente perto de 3.000 cadáveres.
           “Existia nesse ponto da cidade um beco, que teve o nome de Calabouço, hoje travessa de Sancta Luzia, onde ha 63 annos mora o velho Sanct’Anna. Contou-me elle que o alargamento do antigo becco dos Tambores, em angulo com o precedente local, onde está o Laboratorio de Hygiene, fôra devido a uma pilheria do inovidavel José Clemente Pereira. A Misericordia possuia ahi uma casa; mas para o melhoramento planejado era necessaria a compra de dous predios vizinhos. Os proprietarios não o queriam vender por preço algum. José Clemente calou-se, e um bello dia fez do predio da Misericordia depósito de cadáveres! As casas contíguas ficaram sem inquilinos por muito tempo; os proprietarios deram afinal as mãos à palmatoria, e assim José Clemente conseguiu o desejado fim.” (Fazenda, pg. 99)
            O provedor propôs a reforma do hospital seguindo um planejamento que seria aprovado pela Mesa, ficando, no entanto, a elaboração dos projetos e plantas a cargo da Academia Imperial de Medicina e da comissão de engenheiros escolhida pela irmandade. Teve início nesta Mesa o projeto de construção do novo hospital da Misericórdia, obedecendo às regras de higiene. Na gesta da Mesa seguinte, foi escolhido o irmão marechal Cordeiro para levantar uma planta para o hospital com a ajuda dos engenheiros de sua confiança. Contando com a participação da Academia, a planta inicial foi elaborada pelo tenente-coronel engenheiro Domingos Monteiro e a primeira pedra do novo hospital foi lançada em 1840. A fachada foi desenhada pelos arquitetos José Maria Jacintho Rebello e Bithencourt Sampaio, com zimbório de Joaquim Cândido Guilhobel. Para a reforma do Hospital Geral mandou trazer de Portugal engenheiros e técnicos, além de materiais nobres. A execução ficou a cargo de arquitetos e engenheiros de alto nível, assim como as pinturas e esculturas. Enquanto se aguardava a construção do novo hospital, inovações eram feitas no velho e nas repartições da Casa dos Expostos e do Recolhimento das Órfãs. No velho hospital, a principal medida foi a criação de enfermarias separadas para doenças contagiosas.
              “Destinado o terreno do antigo cemitério para a edificação do novo hospital lançou-se em 2 de julho de 1840 a primeira pedra do edifício em presença do Imperador menor, das princezas e do regente do Imperio.” (Azevedo, vol. 1, pg. 358)
            “Toda a obra esculpturada em pedra lioz tirada da pedreira de Pero Pinheiro em Lisboa, onde foi esboçada sob a direção do artista Luiz Giudice, que modelara todos os originaes, concluiu-a o mesmo artista nesta côrte [Rio de Janeiro]. Dirigio o trabalho da ascenção da grande peça em 2 de julho de 1868, sob a inspeção do engenheiro architecto da Santa Casa, Francisco Joaquim Bethencourt da Silva, o mestre Joaquim Pedro de Alcantara.” (Azevedo, vol. 1, pg. 360)
             Paralelamente, começou a ser discutida a possibilidade de se criar um hospital próprio para os alienados a ser administrado pela Santa Casa. Em reunião no dia 24 de agosto de 1841, foi lido decreto de Pedro II, em resposta a uma representação do Provedor Clemente Pereira, no qual autorizava a criação de um hospício para alienados que levaria seu nome, em celebração a sua coroação como imperador. Naquela reunião, os irmãos deliberaram criar uma administração específica para o hospício, que seria edificado numa chácara pertencente à irmandade, na Praia Vermelha, onde já funcionava uma enfermaria para mulheres. A construção do prédio ficaria por conta de contribuição do imperador e de subscrições voluntárias de cidadãos, que seriam recompensados com títulos e condecorações conhecidas como "impostos à vaidade". O expediente parece ter sido eficaz, pois viabilizou em parte a construção do prédio do hospício. Tendo sido colocada a primeira pedra em 1842, foi inaugurado em 1852, ficando definitivamente concluídas as obras em 1855.
Em 1844, tendo em vista a reorganização do Hospital Militar, no Morro do Castelo, a Faculdade de Medicina foi alojada em três locais diferentes: no Hospital Militar, em um sobrado da praia de Santa Luzia e na Santa Casa. Em 18 de fevereiro de 1848, ocorreu a primeira anestesia geral com o clorofórmio no Brasil, empregada pelo Professor Manuel Feliciano Pereira de Carvalho, na Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, em uma amputação da coxa em um rapaz de 15 anos de idade, por "tumor branco do joelho". A partir de então o uso do clorofórmio se generalizou, suplantando o éter, até que novos agentes anestésicos foram descobertos e introduzidos na prática médica. Há a fundação da Maternidade, atual 33ª Enfermaria, e no mesmo ano foi adotado o uso da anestesia na Obstetrícia. No ano de 1850, a administração e algumas cadeiras da Faculdade de Medicina, passaram a funcionar num prédio situado na atual Rua Evaristo da Veiga.
         Em 1850 o Império promoveu uma concorrência entre as Irmandades, corporações e particulares pela Concessão dos serviços públicos funerários. O vencedor teria o privilégio por 50 anos e se obrigava a instalar “três enfermarias e curar em tempo de epidemias a pobreza enferma”. Ganhadora da Concessão, a Santa Casa iniciou uma série de ações para cumprir o Contrato. Para cumprir o contrato, o Provedor José Clemente Pereira ampliou o Campo Santo que passou a se chamar Cemitério São Francisco Xavier (Caju) com a aquisição de terrenos contíguos. Adquiriu uma área na zona sul para um novo Cemitério, o São João Batista (Botafogo). Para instalar as enfermarias comprou a precária Casa de Saúde Dr. Peixoto, na Gamboa, criou uma enfermaria num terreno de sua propriedade em Botafogo e improvisou outra num prédio no Caju.
          “Via-se ahi o muro do antigo cemeterio da Misericordia, transferido em 7 de Dezembro de 1840 paro a Ponta do Caju, com o nome de Campo Sancto, denominação que perdeu em 5 de dezembro de 1851, para tomar a de Cemeterio de S. Francisco Xavier.” (Fazenda, pg. 58)
No ano de 1851, o Ministério dos Negócios do Império entrou em contato com a irmandade com o intuito de estabelecer, segundo a vontade do Imperador d. Pedro II, um asilo para menores desvalidas que não fossem órfãs e que, portanto, não poderiam ser admitidas no Recolhimento já existente. Em 1852 foi criado o Amparo às Meninas Desvalidas, sob administração da Misericórdia e aos cuidados das irmãs de caridade de São Vicente de Paula.
              Em Setembro de 1851, o artista plástico François René Moreaux, pintor e desenhista nascido na cidade de Rocroy, França, foi contratado para o trabalho de ornamentação e detalhes artísticos, como também a feitura do quadro da Ceia do Senhor, por 800$000 (oitocentos mil réis), encravado ao fundo do altar principal da Capela, e outros quadros que adornam os altares de algumas enfermarias do Hospital Geral. Coube a Francisco Alves de Nogueira executar, também em 1851, o estuque e demais decorações da Capela, pelo que cobrou a quantia de 1:600$000 (um conto e seiscentos mil réis).
              Em 1852, foi inaugurado em espaçoso terreno na rua de Santa Luzia o novo Hospital Geral da Misericórdia, afastado do cemitério e da convivência com os loucos. A inauguração foi celebrada no dia de santa Isabel, mas o prédio dava agora as costas para a igreja de Nossa Senhora do Bonsucesso. 
              “Em 27 de junho de 1852 monsenhor Marcianno benzeu o novo edifício, que exposto três dias ao publico, recebeu os doentes no dia 30; no dia 2 de julho houve a festa de Santa Izabel, e a visita do Imperador ao hospital; dous dias depois trasladou-se para a capella ahi edificada o anto viatico, que veio em procissão solemne formada pelas irmandades da Misericordia, Espirito-Santo da Lapa, do Sacramento de S. José, dos frades bentos, carmelitas e franciscanos e por mais de cem recolhidas; o Imperador achava-se na porta do hospital para acompanhar o Sacramento até á capella, onde assistio a um Te-Deum.” (Azevedo, vol. 1, pg. 359)
                 Os hospitais da Misericórdia passariam a contar em 1852 com novo contingente de pessoas em seus corredores: as irmãs de caridade. Foi mais um dos atos transformadores da provedoria de Clemente Pereira, que negociou com a Ordem de São Vicente de Paula de Paris o envio das religiosas para auxiliar os médicos nas funções de enfermaria e farmácia. O primeiro grupo de irmãs chegou à cidade do Rio de Janeiro em setembro de 1852, portanto em meio às grandes epidemias que nela grassaram desde fins da década de 1840, especificamente a febre amarela (1849-50) e o cólera (1855). Muitas foram as visitas do Imperador aos estabelecimentos da Santa Casa, mesmo durante as grandes epidemias (cólera, febre amarela e varíola). Estas doenças dizimaram parte da população da cidade e não fossem os novos hospitais da Misericórdia, muitos doentes não teriam socorro. A presença das irmãs de caridade viabilizava economicamente o atendimento a grande número de pessoas infectadas, auxiliava a concretização do projeto de separação dos doentes contagiosos assim como o alargamento da atuação da irmandade pelo espaço da cidade. Este foi um período em que ela adquiriu vários pequenos prédios, transformando-os em enfermarias ou pequenos hospitais. Foi o caso, por exemplo, do Hospital de Nossa Senhora da Saúde, na Gamboa, inaugurado em 1853 para acolher as vítimas das duas epidemias.
           Ainda na provedoria de José Clemente Pereira, o Amparo e o Recolhimento das Órfãs da Misericórdia foram unificados. A união física das instituições, entretanto, foi conseguida em definitivo no ano de 1866 com a construção do prédio na rua General Severiano que recebeu o nome de Recolhimento das Órfãs e Desvalidas de Santa Teresa, atual Educandário de Santa Teresa.
            José Clemente Pereira faleceu em 1854, no cargo de provedor e foi sepultado no São Francisco Xavier, junto a escravos e pessoas do povo. O Imperador D. Pedro II ordenou a confecção de uma estátua do Provedor, para ser colocada diante de uma imagem sua. As duas esculturas foram instaladas no Salão Nobre do Hospital Geral.
              “A grande obra de caridade de frei Miguel, continuada no Brasil por José de Anchieta, foi depois fructuosamente proseguida por José Clemente Pereira. Destas figuras historicas fez estatuas o esculptor escandinavo Pettrich. A de Contreiras e a de Anchieta (ambos ainda em gesso) acham-se no vestibulo do Hospital geral da Misericordia, e o modêlo da de José Clemente no patamar contíguo no salão de honra do mesmo Hospital. Este bom modelo, hoje pintado a fingir marmore portuguez, já deveria ter sido transformado em estatua de bronze e collocada no logradouro em frente áquelle estabelecimento. Despesa pequena, entretanto justissima homenagem, da qual é credora a memoria do inolvidavel servidor.” (Fazenda, pg. 103)
               Pode-se dizer que sua provedoria transformou o perfil da irmandade, dando o tom à gestão das provedorias subseqüentes. A característica da gestão de Clemente Pereira foi a fragmentação das repartições da irmandade e sua distribuição pela cidade, acompanhando sua expansão e urbanização. Mais do que simples deslocamentos, tais transformações representaram paulatina concentração da irmandade em atividades hospitalares, até que essas atividades e seu nome se transformassem em sinônimos, legando às demais repartições denominações à parte. A atuação dos irmãos foi reduzida a instâncias administrativas, e a importância de sua aparição pública em cerimônias e festas religiosas foi reduzida por efeito da racionalidade que punha em primeiro plano a cura, os investimentos em medicamentos e na medicalização dos corpos. O grande conjunto arquitetônico da rua de Santa Luzia e, portanto, a própria irmandade, passaram a ser dominados por seu hospital. As demais repartições distribuídas por prédios da cidade orbitariam como satélites distantes, marcados pela especialização de funções.
             Entre 1854 e 1856, para enfrentar as epidemias que se sucediam (febre amarela, varíola e cólera), o novo Provedor, Honório Hermeto Carneiro Leão, Marquês de Paraná, transformou a Enfermaria da Gamboa em centro de tratamento de doenças infecciosas, isolando os doentes. Assim, retirou os empestados do convívio com as órfãs, os expostos e demais doentes. Ampliou aquele Hospital, construindo mais quatro enfermarias, para fazer frente ao aumento da quantidade de infectados e denominando-o Hospício Nossa Senhora da Saúde.
Em 1856, foram instalados no casarão do antigo Recolhimento de Órfãs da Irmandade da Misericórdia (Rua de Santa Luzia) os serviços administrativos, a biblioteca e as cadeiras de laboratório da Faculdade de Medicina, conservando as clínicas na Santa Casa.
            Entre 1857 e 1865, o Provedor Marquês de Abrantes iniciou a construção de nova ala no Hospital Geral e organizou a Farmácia. Vendeu apólices para resolver problemas urgentes de caixa e fez um inventário dos bens da Casa para gerir melhor o patrimônio. Por sua influência política, obteve do governo vários auxílios financeiros através de impostos e concessão de loterias que vieram a contribuir nos anos seguintes para o equilíbrio das contas. Modificou os Estatutos da Instituição e montou o primeiro consultório oftalmológico no Hospital Geral. Para agilizar o atendimento a população, o Marquês de Abrantes aumentou o número de consultórios existentes nos hospitais e instalou outros fora deles.
              De 1866 a 1877, o Provedor Zacharias de Góes e Vasconcellos concluiu as obras do Hospital Geral. Conseguiu um inédito saldo financeiro positivo. Contratou um advogado para cuidar das causas da instituição na justiça. Libertou todos os escravos que a Irmandade possuía e decretou que somente trabalhadores livres seriam admitidos em todos os estabelecimentos e nas obras. Em 1874 inaugura-se a sala de honra no 2º andar do hospital. Entre 1878 e 1883, o Provedor José Ildefonso de Souza Ramos, Visconde de Jaguari, realizou diversas melhorias e modernizou os serviços nos hospitais, instalou a eletricidade nos hospitais por meio de bombas e dínamo, canalizou água doce para o tratamento por hidroterapia, o qual instituiu e autorizou a homeopatia como alternativa terapêutica inaugurando um consultório em 1880. Houve um grande crescimento da Faculdade de Medicina, que passou a ocupar mais salas no antigo prédio do Recolhimento das Órfãs. Durante sua gestão, reorganizou o quadro administrativo, vendeu terrenos e saldou dívidas. Aumentou o ganho das “criadeiras” (amas de leite que amamentavam as crianças órfãs). Conseguiu novas fontes de renda: os artigos fúnebres, não mais na mão de terceiros.
           “Via-se tambem um prolongamento do Hospital velho, no fim do qual havia um portão, por onde, das 9 ás 10 horas da noite, os serviçaes faziam a limpeza das enfermarias. Os antigos estudantes aproveitavam-se dessa circunstancia para escapulir e poderem ir a uma tasca proxim  a comprar, para ceia, pão, sardinhas, bananas e queijo.” (Fazenda, pg. 58)
           Entre 1883 e 1889, o Provedor Barão de Cotegipe, saldou dívidas com a doação de seus amigos influentes. Iniciou um período de reformas nos hospitais e educandários. Ele restaurou a capela do hospital. O período de 1890-1901, foi uma época de conflitos entre o governo e a Irmandade. O Presidente Deodoro da Fonseca mergulhou o país em grave crise financeira, prejudicando também a Instituição. Em 1893, durante a Revolta da Armada assistiu soldados dos dois lados. No início do século, os problemas financeiros aumentaram, conseqüência da difícil situação da República. A cidade sofreu drásticas reformas e a Misericórdia teve muitos imóveis desapropriados. As epidemias continuaram a se suceder, atacando sem dó a população mais carente. O Provedor Dr. Miguel Joaquim Ribeiro de Carvalho criou o Grêmio dos Internos, que reunia os futuros mestres da Medicina. Durante sua gestão, a Santa Casa teve a honra de receber a visita de todos os Presidentes da República. A partir da década de 1910, profundas reformas foram feitas no Centro do Rio e vinte e quatro imóveis da Santa Casa foram desapropriados pela municipalidade durante as reformas, diminuindo o patrimônio da entidade. 
         Em 1918 a Faculdade de Medicina se transferiu para a sede própria na Avenida Pasteur (Botafogo), no entanto, mesmo depois da transferência da Faculdade para a Praia Vermelha, o Edifício do Recolhimento das Órfãs continuou acomodando o instituto anatômico, a biblioteca e o diretório acadêmico até os anos de 1940. Neste mesmo ano surgiu a gripe espanhola, novamente lotando os hospitais. A Irmandade perdeu 24 membros. As crianças foram as mais atacadas e a quantidade de mortes foi altíssima. Passado o surto, a situação financeira era dramática. Além dos hospitais lotados com pacientes até nos corredores, a Casa arcava com os sepultamentos dos indigentes. Os Irmãos fizeram vultosas doações e prestaram grandes serviços, atuando como Mordomos nos diversos estabelecimentos. Em 1923, a Oficina Gráfica, na Casa dos Expostos, foi reaparelhada e o Relatório Anual passou a ser impresso ali.
                Entre 1938 e 1953, sendo Provedor Ary de Almeida e Silva, a Santa Casa esteve em delicada situação financeira. O Provedor dedicou-se muito, conseguindo manter os serviços durante anos muito difíceis. Com grande experiência financeira, chamou uma empresa de Consultoria para fazer um levantamento da contabilidade. O resultado foi a verificação de antigas dívidas públicas a receber, e vários outros problemas contábeis. Conseguiu importantes doações: a Presidente da LBA, D. Darcy Vargas, remetia regularmente gêneros alimentícios e funcionários do Banco do Brasil ofereceram um aparelho de cinema à Fundação Romão de Mattos Duarte. 
                Vendeu vários terrenos em Copacabana doados pelo Comendador Paulo Felisberto Peixoto, dono do Bairro Peixoto, para arrecadar fundos. Inventariou os bens da Casa, projetou e construiu 3 edifícios no Flamengo para aluguel. Remodelou o arquivo, possibilitando a catalogação de livros raros e de importância histórica para a Misericórdia. O Centro de Estudos Paulo Cezar Andrade atingiu grande sucesso, ministrando conferências e cursos freqüentados por médicos brasileiros e estrangeiros. Em 1948, há a fundação do Banco de Córneas, o primeiro do Brasil. 
              Entre 1953 e 1962, no Hospital Geral, introduziram-se melhorias nas pesquisas científicas, criou-se o Banco de Sangue, a Escola de Auxiliares de Enfermagem Santa Adelaide e o Serviço de Cirurgia Plástica do Dr. Ivo Pitanguy. Entre 1962 e 1977, houve um grande déficit orçamentário, sendo necessário se vender patrimônio da Irmandade. A crise financeira piorou com a inflação. Aumentos salariais e dos custos e dilapidação do patrimônio da Irmandade por sucessivas desapropriações pioravam a situação. Com uma situação financeira insustentável e sem ajuda governamental, em 1963, a Santa Casa fechou as portas ao atendimento a população. O Governador da Guanabara então permitiu o aumento do valor dos serviços funerários e o Banco do Brasil ofereceu um empréstimo para o pagamento de parte dos débitos. Assim, foi possível o retorno das atividades. Superada a crise, entraram em reparos os hospitais. No Hospital Geral foram inaugurados o Ambulatório Santa Isabel e o Centro de Tratamento Intensivo, o mais moderno da América do Sul, além de vários outros melhoramentos.
            Entre 1977 e 1980 reaparelhou-se o Laboratório de Higiene da Faculdade de Medicina, junto ao Hospital Geral. Inauguraram-se as novas instalações do Laboratório, Farmácia e Indústria de Produtos Farmacêuticos.
       O Hospital Geral recebeu a doação de aparelhagem para a implantação da Tomografia Computadorizada na 12ª Enfermaria. Entre 1980 e 1983 restaurou-se a Igreja de Nossa Senhora do Bonsucesso e a Capela Imperial, ambas tombadas pelo Patrimônio Histórico. Procedeu um amplo programa de reformas e ampliações em diversas unidades. O Hospital conta com 22 (vinte e duas) Irmãs de Caridade que dão suporte aos diversos serviços Especializados e às Enfermarias, no transcorrer do Ano Compromissório. Atualmente são 762 Leitos, 37 Enfermarias, 49 quartos particulares, 16 de serviços, 16 salas cirúrgicas e 86 ambulatórios. Nele funciona ainda o CESANTA - Centro de Estudos de pós-graduação Médica da Santa Casa, onde são realizados cursos de especialização e de Mestrado em diversas especialidades médicas. Recentemente o hospital teve suas atividades assistenciais interrompidas, em meio a acusações de desvios de dinheiro.
Recolhimento das Órfãs da Santa Casa da Misericórdia
O antigo Recolhimento das Órfãs da Santa Casa da Misericórdia tem origens obscuras, mas em 31 de junho de 1739 Marçal Magalhães Lima doou à Santa Casa 52.000 réis para sua construção e reparação. O Capitão Francisco dos Santos também doou uma vultosa importância para a criação e sustento das órfãs. O Recolhimento das Órfãs tinha por objetivo, segundo seus estatutos, abrigar meninas que fossem órfãs de pai e mãe, ou somente de pai, filhas legítimas, cristãs velhas, brancas, de bom procedimento, donzelas e desamparadas, com idades entre nove e 11 anos. Ainda segundo seus estatutos, "o principal fim deste Recolhimento, ... é o serviço de Deus, ... o aproveitamento espiritual e temporal das mesmas órfãs". A repartição organizava-se para oferecer, não sem grandes percalços e resistências, a doutrina espiritual e temporal das órfãs, a vigilância sobre suas honras e desordens, a concessão de dotes, o julgamento e a atribuição de pretendentes. As órfãs deveriam permanecer na instituição por tempo limitado, fixado em seis anos. Embora isso nem sempre acontecesse, a regra demonstra que a instituição se colocava como agenciadora da reinserção das meninas na sociedade local, como mulheres preparadas para formarem unidades domésticas cristãs. As obras levaram cinco anos, e as primeiras órfãs foram recolhidas em 1743.
“...e em 15 de setembro de 1740, dia da festividade da Senhora do Bom Successo, abrio-se o recolhimento com cinco órfãs, das quaes foi nomeada regente D. Isabel Ferreira de Mendonça.” (Azevedo, vol. 1, pg. 381)
O prédio então incorporado ao conjunto arquitetônico da Misericórdia foi construído à esquerda da Igreja da Misericórdia no largo de mesmo nome. As moças nele criadas e que se casassem, recebiam um dote de 200$000, instituído pelo filantropo Inácio Medella. Funcionando junto ao Hospital Geral, suas instalações iniciais foram melhoradas pelo Provedor Correa Vasquez com a ajuda dos Irmãos, nos anos seguintes. O Governador Gomes Freire estimulou e apoiou a iniciativa. Em 1839 o Provedor José Clemente construiu no mesmo lugar um novo edifício de 3 andares. José Clemente, então Provedor da Santa Casa, tornou-se testamenteiro de D. Luiza Avondano Pereira e desistiu da vintena como testamenteiro em prol das órfãs. O imperador Don Pedro II e a imperatriz Dona Thereza Christina concorreram com 15 apólices da dívida pública, totalizando 15.000$000 para as órfãs.
Reconhecendo José Clemente Pereira que a casa do recolhimento era insufficiente para as órfãs, deu começo, no largo da Misericordia, no mesmo lugar do antigo estabelecimento, a um edifício mais vasto, cuja primeira pedra lançou-se em princípios de fevereiro de 1839, e tres annos depois estava concluída; em 2 de julho de 1840 introduzio-se agua no estabelecimento e em 24 de agosto de 1842 recebeu novos estatutos, que fixarão em 48 o numero das órfãs, e prohibirão fosse recolhidas áquelle asylo mulheres de idade superior, a que permettirão os fundadores, e sem moralidade de costumes. Este edifício construido no largo da Misericordia e occupado actualmente pela Faculdade de medicina do Rio de Janeiro, e por enfermarias da Misericordia, consta de tres pavimentos divididos em tres corpos, com dez janellas de peitoril nos pavimentos superiores, e uma porta e aberturas quadrangulares no pavimento inferior.” (Azevedo, vol. 1, pg. 381)
No Recolhimento das Órfãs foram feitas obras, aumentando seu espaço interior e diminuindo sua comunicação com as vielas públicas. Os estatutos foram reformulados e os valores dos dotes, elevados. O Recolhimento permaneceria junto ao hospital somente até a epidemia de cólera, quando teve início igual peregrinação pela cidade, passando da instituição por vários prédios, algumas vezes separando-se as órfãs sãs das enfermas, em uma chácara nas Laranjeiras, na casa de Joaquim Pereira de Faria, na rua Marques de Abrantes, São Cristóvão e por fim, em 1866, de volta a Botafogo, na rua General Severiano. O edifício foi ocupado pela Faculdade de Medicina, após a saídas das órfãs, durante a epidemia de cólera de 1856.
Na epidemia de cholera-morbus em 1855 foram as recolhidas para uma casa nos arrabaldes de Larangeiras, e em outubro do mesmo anno se passarão algumas para a casa do conselheiro Joaquim Pereira de Faria, na rua Marquez de Abrantes, offerecida pelo propietario para alojamento das órfãs durante a epidemia.” (Azevedo, vol. 1, pg. 381)
“A santa casa da Misericórdia foi o seio onde se abrigarão as meninas e moças que então ainda havião no recolhimento [do Parto]; é certo porém que nem todas seguirão esse destino, e que uma ou outra ficou vivendo no século, e recebendo uma pensão ou mensalidade paga, creio eu, nela mitra.” (Macedo, vol. 2, pg. 192)
Casa dos Expostos
          A Casa dos Expostos servia para abrigar as crianças abandonadas. Eram consideradas expostas as crianças que não tinham filiação reconhecida. Em geral, eram abandonas nas igrejas, nas residências de pessoas de prestígio, nas casas de parentes ou simplesmente deixadas nas ruas. De acordo com a legislação, a responsabilidade pelo sustento dos expostos até completarem sete anos era das câmaras. O que elas em geral faziam era pagar amas-de-leite e amas secas para criarem as crianças em suas casas, e às vezes as amas as incorporavam como agregados a seus núcleos familiares. Após completarem sete anos, os expostos passavam à jurisdição dos juízes dos Órfãos, que deveriam encontrar famílias que os abrigassem, tomando-os como agregados ou aprendizes de algum ofício; no caso das meninas, encarregar-se-iam de sua tutela e, posteriormente, de seu casamento. Instituições de caridade, como hospitais e irmandades, acabaram por auxiliar na criação dos expostos, algumas vezes trabalhando em conjunto com as câmaras e os juízes, outras vezes tendo de assumir integralmente a criação das crianças. A Casa dos Expostos da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro pode ser incluída nesse contexto, tendo atuado com freqüência, sem os recursos da câmara, que demoravam a chegar. A Casa dos Expostos da Misericórdia adotou regime misto de acolhimento e distribuição das crianças por amas-de-leite. Mantinha amas que deveriam dar socorro às crianças, assim que chegassem, e também sustentava amas de leite que cuidavam das crianças em suas casas. As que sobreviviam aos primeiros anos, e que não eram reclamadas pelos pais, acabavam sendo auxiliadas pela irmandade no acolhimento como agregadas em alguma família. 
         Em 1738, Romão de Mattos Duarte deixou 32 mil cruzados para a compra de casas e sustentação permanente dos expostos com seus rendimentos. No mesmo ano, Inácio da Silva Medella doou 15 moradas de casas e 1:600$000 réis em dinheiro para a instituição de um lava-pés toda Quinta-Feira Santa, com fardamento dos pobres, e de um dote perpétuo anual para meninas órfãs. Em 1738 foi fundada a Casa da Roda, ao lado do Hospital Geral, sendo depois denominada de Casa dos Expostos. O estabelecimento foi criado para o acolhimento das crianças enjeitadas, marcando o início da assistência à infância no Brasil. Romão Duarte, irmão da Misericórdia, compadecido da sorte dos recém-nascidos enjeitados, forneceu os recursos necessários à criação do estabelecimento, apoiado pelo Governador Geral Gomes Freire de Andrada. O nome Casa da Roda era uma alusão a uma roda onde as crianças eram depositadas do lado da rua e que, por uma meia volta, dava entrada às mesmas para dentro do edifício. A Roda era uma engenhosa engrenagem de madeira que ocupava o lugar de uma janela dando face para a rua, e girava num eixo vertical. Era dividida em quatro partes por compartimentos triangulares um dos quais abria sempre para fora, convidando assim a que dela se aproximasse toda mãe que quisesse separar-se de seu filho recém-nascido. Esta tinha apenas que depositar o exposto na caixa, e por uma volta da roda fazê-lo passar para dentro, e ir-se embora sem que ninguém a observasse. Os recém-nascidos eram colocados anonimamente eram recolhidos aos cuidados das irmãs de caridade.
             Na Casa dos Expostos foram separados os internos sãos dos doentes, trocadas as roupas e demais utensílios utilizados nos cuidados das crianças, introduzida a amamentação artificial e criado um regimento interno para a administração do estabelecimento.
               “Doando José Dias da Cruz aos expostos um terreno no largo da Misericordia, construio-se ahi uma casa para onde forão elles transferidos em 3 de março de 1811. Era o edifício acanhado, construído sem as condições hygienicas, e pouco zelo havia na administração, do que resultava grande mortalidade.” (Azevedo, vol. 1, pg. 376)
            Ela permaneceu junto ao Hospital Geral até 1821, quando foi adquirida uma casa própria no próprio largo da Misericórdia, de frente para a igreja da irmandade.
             “Tendo o governo concedido uma loteria para esta instituição, comprou a Misericordia dous prédios contíguos ao edifício da Roda, em 20 de março de 1821, e, demolindo-os, construio uma casa mas vasta, a qual foi concluída em 1822.” (Azevedo, vol. 1, pg. 377)
         A elevada mortalidade e morbidade entre as crianças, a busca por espaços que correspondessem aos ideais da higiene e os recursos muitas vezes escassos fizeram com que a repartição saísse em jornada pela cidade. Deixando a casa do Largo da Misericórdia, os expostos foram transferidos para a rua de Santa Teresa em 1850; para uma casa na rua da Lapa, no cais da Glória, no ano de 1860; em seguida, para a rua Evaristo da Veiga, até 1906; daí para duas casas no Flamengo até 1911; por fim, neste mesmo ano, para o prédio na rua Marquês de Abrantes, que se transformou na sede definitiva da Casa dos Expostos, desde então denominada Educandário Romão de Mattos Duarte, em homenagem a seu fundador setecentista. 
            “Situada no largo da Misericordia em frente da igreja, era esta casa mal edificada, sem as condições hygienicas, sem um pateo que lhe desse ar e luz e defronte do hospital e próximo do quartel do Moura. Reconhecendo taes defeitos o provedor José Clemente Pereira propoz a mudança da roda para a casa n.7 da rua de Santa Thereza, o que approvado pela mesa conjuncta de 24 de janeiro de 1840, em julho forão os órfãos removidos para essa casa, que era espaçosa, bem localisada e com agua encanada para o consumo.” (Azevedo, vol. 1, pg. 377)
          Das 3.630 crianças expostas na roda, durante dez anos anteriores a 1840, somente 1.024 estavam vivas no fim desse período. No ano de 1838, 39.449 crianças, foram depositadas na roda, das quais seis foram encontradas mortas quando retiradas. Muitas morreram no primeiro dia em que chegaram, e 239 logo depois. O relatório do ministro do Império, para o ano de 1854, dá-nos a seguinte alarmante estatística, com os comentários do Ministro: "Em 1854, 588 crianças, foram recebidas, somadas a 68, já no estabelecimento. Total 656: mortas 435; restantes 221. Em 1853, o número de expostos recebidos foi de 630, e mortos 515(!) Foi portanto menor a mortalidade, no passado do que nos últimos anos. Todavia o número de mortos ainda é aterrador. Até o presente não foi possível verificar as causas exatas dessa lamentável mortandade, que com mais ou menos intensidade sempre se verifica entre os expostos, não obstante os maiores esforços empregados para combater o mal".
         “A Bandeira da Misericordia consiste, pois, em uma tela com moldura ornamentada no estilo da época, tendo na parte superior o escudo da Sancta Casa encimado por uma cruz. O estandarte é sustentado por longo cabo de madeira pintado de preto. A pintura representando o descendimento da cruz é incorrecta imitação de quadro muito conhecido. Na composição da outra face da bandeira, de auctor anonymo, e parecendo mais antiga do que aquella, a figura da Virgem sofreu retoques, os mais absurdos e deturpantes, nos olhos e nos labios. E tão brutalmente feitos com tinta branca, que aflige. A Virgem, cujo manto, um pouco da maneira de Murillo, é preso por dous anjinhos que esvoaçam, ficou de todo prejudicada. Não soffreram muito os grupos. O da direita, formado de um papa, um bispo e um cardeal, tem mais que vêr do que o da esquerda. A admitir-se que similhante quadro fosse obra feita aqui, mostra bem qual era a infancia da Pintura de cavalete no Rio de Janeiro. ... Guardam ainda na egreja: a Bandeira, alguns painéis que iam na célebre procissão dos Fogaréos, poucos bancos artisticos, o antigo cofre contemporaneo dos primeiros ermãos da Misericordia, e o balandrão que muitas vezes vestiu José Clemente no exercicio de suas funcções. No Hospital geral existe copiosa galeria de retratos de benfeitores, trabalhos de Pintura a óleo, de varios artistas e de differentes epochas.” (Fazenda, pg. 103-104)
3 – Descrição:
A Santa Casa tem uma orientação geral nordeste-sudoeste, com frente para sudeste e maior eixo transverso. Ela é formada de quatro alas paralelas, unidas por um corredor transversal no centro, sendo que a 2ª e 3ª ala também se unem nas pontas por um por uma pequena ala transversa. À esquerda deste conjunto principal há um anexo paralelo à fachada esquerda do conjunto principal. À direita há, também, outro anexo, mas aqui em diagonal, incluindo os fundos da Igreja de Nossa Senhora do Bonsucesso, que começa próximo ao canto noroeste do conjunto principal e corre em um sentido quase oeste-leste, indo se expandindo gradativamente, formando 2 paralelogramos paralelos e fechando a área com um edifício transversal, a funerária, que termina ao lado da fachada anterior do complexo principal.
O edifício principal é em estilo neoclássico. O telhado é em quatro águas. Os edifícios são um pouco elevados em relação ao nível da rua, tendo uma base de alvenaria. A fachada anterior compõe-se de três seções, de 2 pavimentos, apresentando a central, uma escadaria de pedra, que dá subida para o átrio, que é de cantaria, e fechado com balaústres de mármore; há 3 portas centrais em arco e mais duas janelas em arco de cada lado, no primeiro pavimento devididas por 8 colunas dóricas de granito. No segundo pavimento há sete portas em arco separadas por 8 colunas dóricas de granito, seguindo o mesmo alinhamento das do primeiro andar, que dão para uma sacada com balaustrada, de onde saem mastros com bandeiras. Nas extremidades há cunhais. No átrio há 2 lampadários de ferro de cada lado. No alto há uma arquitrave com tríglifos e um frontão triangular com tímpano decorado com baixo relevo em pedra lioz, obra do artista Luiz Giudice formando três painéis.
“O [painel] do centro é um medalhão de 13 ½ palmos [3m] de diâmetro, no qual em proporções maiores que o natural, está figurada a Misericordia, como santa e carinhosa protectora de todos os infelizes. Seus braços levantados sustentão o manto que aberto offerece protecção e abrigo a todos os desvalidos. De um lado há um velho aleijado, e já curvado pelo peso dos annos, tendo ao pe de si uma infeliz mãe, que aperta contra o seio um filhinho que vae abandonar; do outro uma matrona que symbolisa a caridade, sustenta no regaço um innocente, a quem alimenta; a um e outro lado da Misericordia, mas em segundo plano, algumas figuras de infelizes de ambos os sexos, e de diversas idades preenchem o painel. Na parte inferior veem-se dous escudos, um repousando sobre uma cruz e tendo esculpidas as cinco chagas, o outro representando o brazão das armas do Brazil. Ornão os dous escudos as plantas do café e do tabaco. Há no centro, entre um e outro escudo, as settas de S Sebastião padroeiro desta cidade. Os baixo relevos lateraes representão emblemas alusivos á religião e a medicina. Figurão de uma parte, entrelaçados com ramagem o calíce eucarístico, a cruz, o báculo o livro dos evangelhos e a estola, e de outra parte, engatados com plantas medicinaes, o livro da sciencia, a caveira e a ampulheta, segnificando o estudo e o tempo; a cobra e o espelho symbolisando a saúde e a verdade. Uma graciosa moldura fecha, como quadro os tres baixo relevos.” (Azevedo, vol. 1, pg. 358-159)
Na fachada anterior, dos dois lados, da seção central monumental, há outra seção de 2 pavimentos, dividida cada uma por um cunhal central. Na parte mais próxima à seção central, há 8 janelas em arco no primeiro andar e 8 portas em arco abrindo para sacadas com grades de ferro no segundo andar; depois de um cunhal há mais 11 janelas em arco no primeiro andar e 11 portas em arco abrindo para sacadas com grades de ferro no segundo andar; a fachada termina com outro cunhal. Ao término da fachada anterior do edifício principal, há de cada lado um portão de alvenaria, com gradil de ferro e tendo no alto um medalhão também de ferro. Após o portão, que dá acesso aos carros, há os prédios do anexo direito e esquerdo. Esta primeira galeria possui, nas laterais direita e esquerda, uma porta central em arco, à qual se ascende por uma escada em projeção de alvenaria, e duas janelas em arco no 1º pavimento e 3 portas em arco abrindo para sacadas com grades de ferro no 2º pavimento. A parte dos fundos da galeria anterior é dividida ao meio por uma galeria central que une a galeria anterior à central; de cada lado dos fundos da galeria central há uma longa série de janelas em arco no primeiro andar e portas em arco abrindo para sacadas com grades de ferro no segundo andar. A parte da galeria central, que une a galeria anterior com a posterior, possui 3 janelas em arco e uma porta em arco no 1º andar e 4 janelas em arco no segundo andar; entre estas janelas há cunhais em forma de colunas. Entre a galeria anterior e a posterior há nas extremidades um gradil de ferro com portão e, atrás dele, um jardim com árvores e bancos, havendo do lado direito uma fonte e uma imagem de Nossa Senhora sobre um pedestal.
A 2ª e 3ª galeria se unem por uma galeria transversa em cada ponta e no centro pela galeria transversa central. Na face anterior há um corpo central que se une à galeria transversa que une com 1ª galeria, só sendo visível as 3 janelas em arco do 3º andar. Coroando a parte central eleva-se um zimbório com uma lanterna octogonal sustentando uma cruz, desenhado pelo engenheiro Joaquim Candido Guilhobel. De cada lado deste corpo central há uma galeria que se divide em 4 seções. As 3 primeiras seções possuem no topo uma platibanda que se une à seção central e à seção mais externa, ambas de 3 andares. A 1ª seção (mais próxima da galeria central) possui 2 andares com 8 janelas de verga reta no 1º andar e 8 portas de verga reta abrindo para uma sacada com gradil. A 2ª seção é separada da anterior e da seguinte por um cunhal de cada lado, e também tem 2 andares. O 1º andar tem 3 janelas em arco e o 2º andar tem 3 portas em arco abrindo para uma sacada com gradil; no alto há um frontão triangular com um brasão no centro do tímpano. A 3ª seção é igual à 1ª seção. A 4ª seção é formada por um torreão de 3 andares, com tem 3 janelas em arco abrindo no 1º andar e 3 portas em arco abrindo para uma sacada com gradil nos 2º e 3º andares. Na face lateral há 2 torreões de 3 andares iguais, com uma galeria transversa de 2 andares entre os torreões. Os torreões anterior e posterior têm 3 janelas em arco abrindo no 1º andar e 3 portas em arco abrindo para uma sacada com gradil nos 2º e 3º andares. A galeria transversa entre os torreões tem 2 andares e possui 8 janelas de verga reta no 1º andar e 8 portas em arco de verga reta abrindo para uma sacada com gradil no 2º andar. Há, portanto outro jardim arborizado de cada lado entre a 2ª e a 3ª galeria, só que estes estão fechados por ambos os lados por galerias. A galeria transversa central tem, também, 2 andares com 8 janelas de verga reta no 1º andar e 8 portas de verga reta abrindo para uma sacada com gradil no 2º andar; no lado direito há uma projeção romboide para fora, saindo do meio da fachada, de 2 andares, e com o mesmo padrão de janela e portas do resto da fachada. A parte posterior da 2ª galeria e anterior da 3ª galeria possuem, de cada lado da galeria central, 19 janelas em verga reta no 1º andar e 19 portas de verga reta abrindo para uma sacada com gradil no 2º andar.
A parte posterior da 3ª galeria possui, de cada lado da galeria central, 18 janelas em verga reta e próximo ao ponto mais externo da fachada, uma porta de verga reta, dando para uma escadaria de alvenaria no 1º andar e 19 portas de verga reta abrindo para uma sacada com gradil no 2º andar. A 4ª galeria possui em sua face posterior, na parte mais externa 3 janelas em arco no 1º andar e 3 portas em arco abrindo para uma sacada com gradil, e entre elas uma longa série de janelas de verga reta no 1º andar e de portas de verga reta abrindo para uma sacada com gradil. No centro da fachada há um passadiço suspenso comunicando com o muro posterior.
No interior da 1ª galeria, logo após a entrada, há um vasto vestíbulo com 4 colunas dóricas de fuste liso no meio e pilares. No lado esquerdo do vestibulo da Santa Casa pode ser vista a estátua de Frei Contreiras, envolvido por um gradil baixo e na frente de uma porta em arco, rodeado por 2 bustos e 2 grandes quadros; pouco depois, ainda à esquerda fica outra porta, que dá para a farmácia. No lado direito há uma porta que dá para a escada que leva ao 2º andar e depois outra porta que leva para outra galeria. Na parede posterior, há 2 portas em arco que dão para a galeria transversal e, encostado em uma parede, uma estátua de José de Anchieta. Subindo-se pela escada do lado direito, chega-se à ao Salão dos Provedores e no alto a outro vestíbulo onde se vê à esquerda as estátuas de D. Pedro II e José Clemente Pereira; atrás delas fica o Sala de Honra, e na sua frente, o anfiteatro.
“A grande obra de caridade de frei Miguel, continuada no Brasil por José de Anchieta, foi depois fructuosamente proseguida por José Clemente Pereira. Destas figuras historicas fez estatuas o esculptor escandinavo Pettrich. A de Contreiras e a de Anchieta (ambos ainda em gesso) acham-se no vestibulo do Hospital geral da Misericordia, e o modêlo da de José Clemente no patamar contíguo no salão de honra do mesmo Hospital. Este bom modelo, hoje pintado a fingir marmore portuguez, já deveria ter sido transformado em estatua de bronze e collocada no logradouro em frente áquelle estabelecimento. Despesa pequena, entretanto justissima homenagem, da qual é credora a memoria do inolvidavel servidor.”
Em 2 de julho de 1874 inaugurou-se a sala de honra que está em relação com a magnificência do edifício. Dão entrada para ella três portas, ás quaes correspondem outras tantas no fundo; tem sete janelas de sacada e sete portas interiores. As paredes são pintadas a oleo fingindo damasco, e as portas a branco porcellana com filetes de ouro. O tecto de estuque apresenta um baixo relevo feito pelo artista Chaves Pinheiro, e é sustentado por 12 columnas, em cujo centro veem-se os bustos dos doze apostolos em oleo. No fundo se acha a estatua do Imperador em grande uniforme, feita pelo estatuário Francisco Manoel Chaves Pinheiro. Contiguo á sala há o gabinete da Imperatriz, pintado a oleo e mobiliado com moveis de jacarandá, estofado de brocatel carmesim ao gosto de Francisco I, feito na cada da Correcção.” (Azevedo, vol. 1, pg. 362)
O salão dos bemfeitores é extenso e simples de ornatos, apresentando pendentes das paredes os retratos dos principaes bemfeitores da Misericordia e dos respectivos provedores...” (Azevedo, vol. 1, pg. 362)
          A Capela Nossa Senhora da Misericórdia trata-se de um pequenino templo, que fica na 2ª galeria, no 3º andar. Já foi chamado de Capela do Sacramento e, depois, Capela Dourada ou Imperial. Era nela onde D. Pedro II costumava ir, com a família, em busca de recolhimento e paz espiritual. O título Capela Imperial advém do uso que dela faziam altos dignatários do Império, que utilizavam a Capela para constantes reflexões. Ela tem planta circular, inserida em um quadrado e é coberta pelo zimbório. Seu interior foi inteiramente realizado pelo grande entalhador Antônio de Pádua e Castro. A capela possui lindos retábulos com os retratos dos 4 evangelistas pintados pelo artista Carlos Luiz do Nascimento. Há um quadro da Ceia do Senhor, encravado ao fundo do altar principal da Capela, do artista plástico francês François René Moreaux. O estuque e demais decorações da Capela foram feitos por Francisco Alves de Nogueira em 1851.
“A nave tem a porta principal diametralmente oposta ao altar-mór e duas outras no diâmetro perpendicular àquela direção. As três portas são retangulares e encimadas por um motivo simétrico, formado por um grande florão central, do qual partem elementos vegetais em espiral, de onde nascem, lateralmente, motivos inspirados nos grotescos.
Tanto o retábulo-mór quanto as portas são ladeados por pilastras sobre altos pedestais; tem fuste canelado e capitel compósito, e sustentam um entablamento pronunciado, composto por arquitrave em sucessão de molduras, um friso liso e uma cornija.
Nos espaços restantes, entre as colunas, foram colocados medalhões circulares que lembram espelhos, contendo pinturas e encimados por um elemento simétrico em forma de laço, do qual pendem grinaldas de flores em ambos os lados do eixo de simetria. Sob os medalhões foram colocados, apliques de cinco braços, também subordinados a um eixo de simetria. Sob esse eixo se desenvolve um motivo vegetal semelhante àquele dos elementos laterais das portas.
O altar se estrutura em nicho pouco profundo, em arco pleno, apoiado em duas pilastras cujo fuste é decorado com uma moldura em elementos fitomorfos. No espaço limitado pelos pedestais das pilastras que balizam o altar há uma mesa de formato retangular, de frontal reto, à frente da qual se acha a banqueta do retábulo, que nela se encosta. Essa mesa está, portanto, num plano recuado em relação à banqueta, e tem sua superfície decorada por motivos em grinalda de folhas e flores, que completam a decoração do primeiro nível do altar.
A frente da mesa está a banqueta em formato de sarcófago, cujo frontal é contornado por uma delicada moldura. O painel tem no centro um motivo simétrico em folhas de acanto sugerindo um vaso, do qual pendem folhagens em espiral. Duas grandes folhas de acanto marcam os limites do frontal da banqueta e um largo friso de folhas de acanto situa-se entre o frontal e o tampo da mesa.
O segundo nível do retábulo compõe-se da mesa e do sacrário, uma peça de grande beleza, que corresponde aproximadamente a dois terços da altura do nicho. O sacrário tem forma de baldaquino encimado por uma grande coroa. A partir do nível da mesa, no plano mais recuado, uma volumosa grinalda, em folhas de acanto e flores, circunda todo o nicho.
No nicho não existe imagem escultória e sim um grande quadro pintado por Raimundo da Costa e Silva, representando a Santa Ceia. O quadro se apóia em uma mesa de frontal decorado com um painel contornado por moldura de ângulos reentrantes e dois motivos florais simétricos, em curvas e contracurvas.
O coroamento do retábulo surge como chave do arco do nicho: vários querubins sobre nuvens sustentam o cordeiro com a cruz sobre o livro dos sete selos, do qual surgem raios de luz que encobrem parte do entablamento da nave.
Considerando o altar como um todo, vemos que o artista o concebeu numa solução original, na qual combinou elementos classicizantes (o nicho em arco pleno, os elementos formais decorativos, como cordões, painéis de molduras quebradas, a colocação de um quadro pintado no lugar da imagem) com elementos formais do Rococó (folhas de acanto, rocalhas aqui ordenadas, em alguns pontos, à semelhança de motivos orientais). Pádua e Castro suprimiu ainda os elementos de suporte do altar (colunas, pilastras e quarteirões), enfatizando assim a sua clareza de linha. Na tentativa de equilibrar os elementos classicizantes com os do gosto Rococó, o artista manteve a mesa do altar em formato de sarcófago, que contrasta evidentemente com a mesa de frontal reto, que apóia o quadro da Santa Ceia.” (Fernandes, pg. 24-27)
4 – Visitação:
            A instituição é um hospital e não está oficialmente aberta à visitação pública, a pesar de ser fácil o acesso às áreas externas da mesma.
5 – Bibliografia:
DE LAGRANGE, Louis Chancel. A tomada do Rio de Janeiro em 1711 por Duguay-Trouin. Rio de Janeiro: Departamento de Imprensa Nacional, 1967
SANTA MARIA, Agostinho de. Santuário Mariano. Tomo X, Lisboa: Oficina de Antonio Pedrozo Galram, 1722.
AZEVEDO, Moreira de. Rio de Janeiro. Sua história, monumentos, homens notáveis, usos e curiosidades. Vol. 1. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1877.
FAZENDA, José Vieira. Antiqualha e memorias do Rio. RIHGB, vol. 140, 1921.
COARACY, Vivaldo. Memória da Cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1955.
COARACY, Vivaldo. O Rio de Janeiro do Século XVII. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1965
CRULS, Gastão. Aparência do Rio de Janeiro. 3ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1965
GERSON, Brasil. História das Ruas do Rio5ª ed. Rio de Janeiro: Editora Lacerda, 2000.
GANDELMAN, Luciana Mendes. A Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro nos séculos XVI a XIX. 2001.
FERNANDES, Cybele Vidal Neto. Cadernos do Patrimônio Cultural, pg. 21-27.
http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/iah/pt/verbetes/stcasarj.htm

Holy House of Misericordy of Rio de Janeiro: Brazil, State of Rio de Janeiro, City of Rio de Janeiro, downtown.
           The Misericordy was founded as a hospital to the poor sick in 1582 in the future street Santa Luzia. It was a charitable institution with a hospital and a great deal of asylums. The present building was built between 1840 and 1852, with later addenda.

Vista de satélite google. A Avenida à esquerda é a Presidente Antônio Carlos. À direita é a  General Justo. No alto, a nordeste
 da Santa Casa, fica o complexo do Museu Histórico Nacional.
Mapa de Luis dos Santos Vilhena, 1775. 1. (esquerda) o Forte São Thiago.; 2. Igreja de Nossa senhora do Bonsucesso;
3. Hospital Geral da Santa Casa (observe que ele fica a direita da Igreja, e não na Rua Santa Luzia); 6. Colégio e Igreja
dos Jesuítas, no Morro do Castelo.
Pintura de Eugene Ciceri, 1852. Em primeiro plano, o Forte São Thiago. Atrás a Santa Casa. Depois o Morro do Castelo
 com o Colégio dos Jesuítas e mais ao fundo as 2 torres da Igreja de São Sebastião. Na praia, vê-se após o morro, a Igreja
de Santa  Luzia. Observe que a Rua Santa Luzia costeia a praia, antes do aterro. Na Santa Casa, observe que ainda não se
 construiu a primeira galeria, vendo-se diretamente a segunda galeria, tendo o zimbório no topo.
Pintura de Fr. Franz, 1855. Vista desde de trás, provavelmente desde o alto
do Morro do Castelo. Em primeiro plano os fundos da Santa Casa, Observe
que ainda não se construiu a primeira e a quarta galerias, vendo-se diretamente
a segunda e terceira galerias, tendo o zimbório no topo. À frente a Ilha de
Villegagnon e, à esquerda, a Ilha da Boa Viagem. 
Também não existe o
 anexo à direita da Santa Casa.

Pintura de  Pieter Godfred Bertichem, 1856. Santa Casa. Na praia, vê-se, à esquerda, a Igreja de Santa Luzia. Observe que
 a Rua Santa Luzia costeia a praia, antes do aterro. Na Santa Casa, observe que ainda não se construiu a primeira galeria,
 vendo-se diretamente a segunda galeria, tendo o zimbório no topo. Também não existe o anexo à direita da Santa Casa.
Pintura de Louis-Julien Jacottet, 1861. Em primeiro plano a Santa Casa. Atrás o Morro do Castelo com o Colégio dos
 Jesuítas e mais à esquerda as 2 torres da Igreja de São Sebastião. Na praia, vê-se, na praia à esquerda, a Igreja de Santa
Luzia. Observe que a Rua Santa Luzia costeia a praia, antes do aterro. Na Santa Casa, observe que ainda não se construiu
 a primeira galeria, vendo-se diretamente a segunda galeria, tendo o zimbório no topo.
Pintura de Sebastien Auguste Sisson, entre 1840 e 1877.Na Santa Casa, observe que ainda não se construiu a primeira
 galeria, vendo-se diretamente a segunda galeria, tendo o zimbório no topo. Observe, também que o portão à esquerda
 é diferente.
Santa Casa da Misericordia, Marc Ferrez, 1895. Fachada anterior.
Santa Casa, 1910. Em primeiro plano o anexo direito da Santa Casa (antigo Recolhimento das Órfãs), tendo ao lado a
Igreja de Nossa Senhora do Bonsucesso. Atrás vê-se o Hospital Geral da Santa Casa, já com as 4 galerias, Ainda não se
vê o anexo  esquerdo, vendo-se a aba do Morro do Castelo. Seguindo a praia vê-se a Igreja de Santa Luzia e no final o
 Palácio Monroe.
Demolição do Morro do Castelo, 1922. Em primeiro plano, a Avenida Rio Branco. Na extrema esquerda partes do Teatro
 Municipal e do Museu de Belas Artes. Depois a  Biblioteca Nacional e a Justiça Federal. Atrás os restos do Morro do Castelo.
 A rua transversal é a Santa Luzia, já com algum aterro à frente. Nela se vê as duas torres da Igreja Santa Luzia e, mais no alto
 a Santa Casa.
Morro do Castelo. Vista tomada do Palácio de Festas, Augusto Malta. Exposição
de 1922. Ao fundo o Morro do Castelo com o Colégio e Igreja dos Jesuítas.
Santa Casa, 2a. e 3a galerias e, à direita, parte do Anexo direito. Observe logo
depois a pequena cúpula da capela-mor da Igreja de Nossa senhora do Bonsucesso.
Santa Casa da Misericordia. Frente, Augusto Malta
Rua Santa Luzia. Santa Casa da Misericordia à direita da foto, atrás das árvores.
 Santa Casa da Misericordia. Vista desde o Palácio dos Estados, Augusto Malta,
Exposição de 1922. Ao fundo ainda se vê os restos do Morro do Castelo
Santa Casa da Misericórdia, décadas de 1950-1960.
Frente. Portão esquerdo, entre o anexo esquerdo e o edifício principal
 (foto do autor)

Frente (foto do autor)
Frente (foto do autor)
Frente (foto do autor)
Frente (foto do autor)
Frente (foto do autor)
Frente (foto do autor)
Frente (foto do autor)
Frente. Detalhe do frontão (foto do autor)
Frente (foto do autor)
Frente (foto do autor)
Frente (foto do autor)
Frente (foto do autor)
Frente (foto do autor)
1a. Galeria, lado esquerdo e portão esquerdo
(foto do autor)
1a. Galeria, lado esquerdo e portão esquerdo
(foto do autor)
1a, 2a e 3a. Galerias, lado esquerdo e portão esquerdo (foto do autor)
1a. e 2a. galerias. Lado esquerdo (foto do autor)
1a. e 2a. Galerias, lado esquerdo. Observe o portão entre as 2 galerias
(foto do autor)
2a. e 3a. Galerias, lado esquerdo. Observe o portão entre as 2 galerias 
(foto do autor)
2a. e 3a. Galerias, lado esquerdo. Observe o portão entre as 2 galerias 
(foto do autor)
2a. e 3a. galerias. Lado esquerdo (foto do autor)
2a. e 3a. galerias. Lado esquerdo (foto do autor)
2a. galeria. Lado esquerdo, torre. (foto do autor)
  Lado esquerdo, entre a 2a. e 3a. galerias(foto do autor)
3a. galeria, torre. Lado esquerdo (foto do autor)
 3a. galeria, torre. Lado esquerdo (foto do autor)
3a. e 4a. galerias. Lado esquerdo (foto do autor)
3a. e 4a. galerias. Lado esquerdo (foto do autor)
3a. e 4a. galerias. Lado esquerdo. portão para jardim interno (foto do autor)

Portão direito visto de dentro, entre a 1a. galeria  (lado direito da foto) e a
 funerária (lado esquerdo da foto) (foto do autor)
1a. e 2a. galerias, lado direito. Portão de acesso ao jardim (foto do autor)
1a. e 2a. galerias, lado direito. Portão de
 acesso ao jardim (
foto do autor)
1a. galeria. Fundos e jardim interno (foto do autor)
1a. galeria, fundos e 2a. galeria frente e jardim interno (foto do autor)
2a. galeria. Frente e jardim interno (foto do autor)
2a. galeria. Frente e jardim interno (foto do autor)
2a. galeria. Frente e jardim interno (foto do autor)
Jardim interno e fonte entre a 1a. e 2a. galerias (foto do autor)
Jardim interno entre a 1a. e 2a. galerias.Imagem (foto do autor)
Galeria transversa entre a 1a. e 2a. galerias (foto do autor)
Galeria transversa entre a 1a. e 2a. galerias (foto do autor)
Galeria transversa e parte da 2a. galeria
 (foto do autor) 
Galeria transversa e parte da 2a. galeria
 (foto do autor)
Galeria transversa e parte da 2a. galeria 
(foto do autor)
1a. e 2a. galerias, lado direito (foto do autor)
1a, e 2a. galerias, lado direito (foto do autor)
2a., e 3a. galerias, lado direito (foto do autor)
2a., 3a. e 4a. galerias, lado direito (foto do autor)
3a. e 4a. galerias, lado direito (foto do autor)
3a. e 4a. galerias, lado direito com portão para o jardim interno (foto do autor)
4a. galeria, lado direito (foto do autor)
4a. galeria. Fundos e muro externo (foto do autor)
4a. galeria. Fundos (foto do autor)
4a. galeria. Fundos (foto do autor)
4a. galeria. Fundos e muro exterior. Ao fundo da foto vê-se o anexo esquerdo
 (foto do autor)

4a. galeria. Fundos (foto do autor)
Muro traseiro com aposento (foto do autor)
4a. galeria. Fundos. Ao fundo da foto vê-se o anexo esquerdo (foto do autor)
4a. galeria. Fundos. Ao fundo da foto vê-se o anexo esquerdo (foto do autor)
4a. galeria. Fundos. Oratório (foto do autor)
4a. galeria. Fundos e passadiço (foto do autor)


4a. galeria. Fundos. Vista desde a o Ministério da fazenda (foto do autor)
Vestíbulo, do lado esquerdo, olhando para frente
Vestíbulo, lado direito. Observe as belas colunas e o piso decorado. Ao fundo, porta com escada para o Salão dos Provedores e Salão de Honra
Vestíbulo, lado direito. Observe as belas
colunas  e o piso decorado. Ao fundo, porta
com  escada para o Salão dos Provedores
e Salão de Honra
Vestíbulo, lado direito
Vestíbulo, lado direito. Observe a porta com escada para o Salão dos Provedores e Salão de Honra
Vestíbulo, olhando do lado direito para o esquerdo. Observe as belas colunas e o piso decorado. 

Vestíbulo, olhando do lado direito (escada) para o esquerdo. 
Vestíbulo, lado esquerdo. Observe a estátua de Miguel Contreras
Vestíbulo, lado esquerdo. Observe a estátua de Miguel Contreras
Vestíbulo, lado esquerdo. Observe a estátua de Miguel Contreras
Vestíbulo, lado esquerdo. Observe a
estátua de Miguel Contreras
vestíbulo, frente. Estátua de José de Anchieta


Galeria transversa entre 1a. e 2a. galerias. Fundos
Galeria transversa entre 1a. e 2a. galerias. Frente e lado esquerdo
Galeria transversa entre 1a. e 2a. galerias. Estátua de São José com o
 menino Jesus
Galeria transversa entre 1a. e 2a. galerias. Estátuas de São Vicente de Paulo (esquerda) e de São José com o menino Jesus
Interior. Corredor da 1a. galeria direita.
Observe a estátua de José de Anchieta
Interior. Corredor da 1a. galeria esquerdo
Observe a estátua de José de Anchieta
Interior. Corredor
Interior. Corredor

Salão dos Provedores, 2o. andar da 1a. galeria, lado direito
Salão dos Provedores, 2o. andar da 1a. galeria, lado direito
Salão dos Provedores, 2o. andar da 1a. galeria, lado direito. Observe o teto
decorado

Salão dos Provedores, 2o. andar da 1a. galeria, lado direito. Observe o teto
decorado

Salão do 2o. andar da 1a. galeria, lado esquerdo. Observe as estátuas de José
 Clemente e D. Pedro II
Salão do 2o. andar da 1a. galeria, lado esquerdo. Observe as estátuas de José
 Clemente e D. Pedro II
Escada interna da 2a. galeria
Auditório da 1a. galeria, 2o. andar
Capela. Porta.

Capela. Porta
Capela. Altar-mor
Capela. Altar-mor
Capela. Altar-mor
Capela. Altar dos Juramentos, década de 1940-1950
Capela. Altar dos Juramentos. Crucifixo
Capela. Teto
Capela. Teto

Interior
Sala de reuniões.
Sala de reuniões. Teto
Sala de reuniões. Teto

Anexo esquerdo, frente
Anexo esquerdo, frente
Anexo esquerdo. Observe como o 1o. andar está descaracterizado e o segundo
andar é de estilo moderno (foto do autor)
Anexo esquerdo. Observe aqui um trecho menos descaracterizado
(foto do autor)


Funerária. Frente e Portão direito (foto do autor)
Funerária. Frente (foto do autor)
Funerária. Frente (foto do autor)
Funerária. Fundos (foto do autor)
Anexo direito. Face posterior, porção mais
a oeste (foto do autor)
Anexo direito. Face posterior, porção oeste (foto do autor)
Anexo direito. Face posterior, porção central
(foto do autor)
Anexo direito. Face posterior, porção central, e fundos da Igreja de Nossa
Senhora do Bonsucesso (foto do autor)
Anexo direito. Face posterior, porção central
  (foto do autor)
Fundos da Igreja de Nossa Senhora do
 Bonsucesso (foto do autor)
Anexo direito. Face posterior, porção mais a oeste (foto do autor)

Anexo direito, porção mais a leste. Interior do quadrângulo (foto do autor)
Anexo direito, porção mais a leste. Interior do quadrângulo (foto do autor)
Anexo direito, porção mais a leste. Interior do quadrângulo (foto do autor)
Anexo direito, porção mais a leste. Interior do quadrângulo (foto do autor)
Anexo direito, porção mais a leste. Interior do quadrângulo (foto do autor)
Anexo direito, porção mais a leste. Interior do quadrângulo (foto do autor)
Anexo direito, porção mais a leste. Interior do quadrângulo (foto do autor)
Anexo direito, porção mais a leste. Interior do quadrângulo (foto do autor)
Anexo direito, porção mais a leste. Interior
do quadrângulo. São Camilo (foto do autor)
Anexo direito, porção mais a leste. Interior
do quadrângulo. São Camilo (foto do autor)
Ladeira da Misericórdia, pintura de Eduard Hildebrandt, 1844. Ao fundo o
Morro do Castelo com o Colégio e Igreja dos Jesuítas. Observe o Anexo
direito, parte da
 frente. Veja que aqui, o anexo, junto a ladeira, só tem um andar
Largo e Ladeira da Misericórdia, Abraham-Louis Buvelot, 1840-60Observe
o Anexo direito, parte da frente, logo à direita da Igreja de Nossa Senhora do
Bonsucesso. Veja que aqui, o anexo, junto a ladeira, só tem um andar

Largo e Ladeira da Misericórdia, século XIX. Observe no Anexo direito,
parte da frente, e a Igreja de Nossa Senhora do Bonsucesso.
Largo e Ladeira da Misericórdia, 1907. Ao fundo o Morro do Castelo com
Colégio e Igreja dos Jesuítas. Observe no Anexo direito, parte da frente,
 logo à direita da Igreja de Nossa Senhora do Bonsucesso, junto a ladeira,
com só tem um andar.
Largo e Ladeira da Misericórdia, antes de 1922. Ao fundo o Morro do Castelo
com o Colégio e Igreja dos Jesuítas. Observe o Anexo direito, parte da
 frente,
 logo à direita da Igreja de Nossa Senhora do Bonsucesso. Veja que aqui, o
anexo, junto a ladeira, só tem um andar.

Ladeira da Misericórdia, 1907-1922. Observe o Anexo direito, parte da frente
Largo e Ladeira da Misericórdia, 1921. Observe o Anexo direito, parte da
frente, logo à direita da Igreja de Nossa Senhora do Bonsucesso.

Ladeira da Misericórdia, 1922. Ao fundo o Morro do Castelo com o Colégio
e  Igreja dos Jesuítas. Observe o Anexo direito, parte da frente.
Ladeira da Misericórdia, década de 1930. Observe o Anexo direito, parte
da
 frente,

Largo da Misericórdia, década de 1922. Observe o Anexo direito, parte da
frente, e a Igreja de Nossa Senhora do Bonsucesso. No canto esquerdo, parte
do Museu Histórico Nacional.
Largo da Misericórdia, visto do Museu Histórico Nacional, Observe o Anexo
 direito, frente, em sua parte mais a leste (foto do autor)

Largo da Misericórdia. Observe o Anexo  direito, frente, em sua parte mais
 a oeste (foto do autor)
Ladeira da Misericórdia. Observe o Anexo
direito, 
frente, parte mais a oeste
 (foto do autor)